O “Flight Simulator” no aprendizado do voo real.

 

Olá tripulação, aqui vai meu primeiro post.

Vamos começar com um pouco de história, que para a maioria de vocês pode mais parecer pré-história.

A idéia de um simulador de voo baseado em recursos de computação remonta a segunda metade da década de 1970, quando Bruce Artwick, em 1975, demonstrou, em sua tese de graduação em engenharia elétrica, as possibilidades de se desenvolver simulações gráficas utilizando computadores (vocês não chamariam aquelas coisas de computadores, já que a capacidade daquelas máquinas era muito menor do que a do smartphone que está aí na sua mão).

Mas isso foi em um tempo em que vocês nem haviam nascido e eu estava sendo contaminado pelo bacilo Aerocócus enquanto assistia com meus 14 anos (nossa, nem lembrava mais que eu já tive essa idade), às acrobacias de Alberto Bertelli em seu Bucker.

Anos mais tarde, em 1990 já morando em São José e trabalhando na indústria aeronáutica iniciei meu curso de PP checando em 1992. Naquela época, entre meus voos no “Boero”, e no Uirapuru, a recomendação do instrutor entre outras, era de complementar o treinamento com o tal do voo mental e a famosa hora de cabine. Então era ir para o Aeroclube, tomar o comando do avião dentro do hangar e repassar todas as manobras e checklists que certamente seriam exigidos nos próximos voos.

Meu primeiro contato com o Flight Simulator aconteceu lá por volta de 94 ou 95 quando ganhei de meu primo Newton, o Flight Simulator 5.0 lançado em 1993 no qual se utilizava, pela primeira vez, textura em seus gráficos. Eu ainda o tenho guardado, com manual e tudo.

Mas já chega de história, vamos ao que interessa.

As discussões em relação aos limites entre a aviação real e a virtual podem tomar proporções consideráveis entre uns afirmando que um “flight Simulator” não passa de um brinquedo ou jogo de vídeo game e outros defendendo a hipótese de que um piloto virtual poderia até pilotar um avião real.

Quanto a mim, que hoje voo aviões reais e faço também alguns voos virtuais, considero que seria muito remota a possibilidade de alguém que tenha somente experiências virtuais efetuar, com êxito, um “turninho de pista” que fosse, em um Cessninha 150.

Mas e então? Será que existe, no voo virtual realizado em a casa, alguma utilidade que possa contribuir para o treinamento de voo real?

Fonte da imagem: UOL

Bem, simuladores já não são mais máquinas inacessíveis, e muitos aeroclubes já possuem simuladores estáticos para treinamento de voo IFR. As vantagens de se iniciar o treinamento IFR em simuladores são várias e dentre elas, a que se destaca é o custo da hora de vôo em relação ao vôo real.

Tudo bem, mas e o “Flight Simulator” que tenho em casa?

Então, a diferença entre o “Flight” que temos em casa e o do nosso Aeroclube, por exemplo, é que lá o Flight Simulator 2004 é instalado em uma CPU que projeta, por meio de um datashow, o ambiente externo na parede à frente enquanto manda as imagens dos instrumentos para monitores escondidos atrás de um painel de Sêneca, aliás, uma cabine de Sêneca completa onde nossos Joysticks, teclados e mouses são substituídos pelo manche, manetes e interruptores do próprio avião. Além disso, o simulador é homologado, lacrado e controlado pela ANAC para que possa ser utilizado oficialmente para treinamento.

Tudo bem… Mas   e   o “Flight Simulator”  que   tenho   em    minha   casa?!?!

Tá bom, tá bom, vamos falar sobre isso então.

Lembra quando eu falei sobre voo mental e hora de cabine? Muito bem, em 2011 quando voltei a voar, o Aeroclube já contava com os Cessnas 150 e 152. Eu precisei adquirir o manual, fazer a prova de equipamento e então partir para o voo. Foi aí que eu resolvi testar a teoria de utilizar o “Flight Simulator” como preparação e complementação ao treinamento de voo real. Para mim o resultado foi excelente, razão pela qual decidi escrever este post. Mas para que o voo virtual feito em seu computador seja útil é necessário observar algumas coisas que gostaria de compartilhar com vocês.

Fonte da Imagem: askacfi.com

Primeiro você deve adquirir o manual do avião no qual vai fazer o treinamento real,  deve também adquirir uma cópia do “checklist” que fica a bordo, aquela ficha que você vai consultar para realizar o vôo real. Depois de estudar os pontos principais do manual relacionados aos aspectos físicos da cabine, como posição dos mostradores do painel, manetes, disjuntores, rádios, transponder, compensador, etc. você deve ir ao Aeroclube, fazer uma hora de cabine no avião real e anotar ou se quiser até fotografar o interior da cabine para ter o máximo de informação possível.

Agora vamos fazer a lição de casa.

O primeiro passo é adquirir e instalar um modelo de avião que seja idêntico, ou na falta deste, o mais próximo possível do real que você pretende voar. Para o Cessna 150 ou 152, por exemplo, tem os modelos da “Carenado” que são muito bons.

Muito bem, agora com tudo pronto é hora de tirar proveito de seu Flight Simulator.

“Entre” em seu avião com o checklist em mãos, (o mesmo que você vai usar no vôo real) e inicie os procedimentos. Aqui vai uma dica importante: utilize o mouse para acionar os controles no painel virtual do avião, a única exceção é para o joystick que pode ser utilizado para comandar o manche, todos os outros comandos, como interruptores de luzes e bomba elétrica (quando houver), compensador, ar quente, acionamento de rádios e transponder, ajuste de altímetro, etc. devem ser feitos pelo mouse. Este exercício vai ajudá-lo a memorizar onde estão os comandos, mostradores e interruptores.

Além da familiarização com a cabine, este exercício vai fazê-lo memorizar o próprio checklist. Você pode achar que é exagero, mas no início do treinamento de voo real, um check no ponto de espera pode durar uma eternidade, além disso, você se sentirá muito desconfortável se após olhar para o tacômetro para cravar 1700 rpm voltar ao checklist e ficar procurando o próximo passo enquanto o motor “urra” e seu instrutor tenta segurar o avião no freio para não invadir a pista de decolagem.

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Mas voltando ao parágrafo anterior, estando na cabine inicie o checklist para acionamento, este é, em minha opinião, o mais tranqüilo, pois você tem geralmente tempo de sobra para fazer (além de ainda não estar pagando) e vai sempre ser feito, inclusive no vôo real, com o checklist “em mãos”.

Então vamos lá:

Inspeção externa executada pasta e equipamentos a bordo, cintos ajustados; A seguir, por exemplo, pode ser “disjuntores comprimidos”, e aí então chegou a hora de utilizar o botão do joystick para direcionar seus olhos para a posição dos disjuntores (se necessário aqui pode até utilizar o zoom), e por aí vai: Bateria e alternador ligados, seletora aberta, ar quente fechado, etc. sempre identificando no painel e acionando com o mouse (quando for o caso) cada um dos controles ou interruptores.

Motor ligado e pronto para o táxi, hora de se deslocar para o ponto de espera. O check no ponto de espera é o mais complexo, e você já não tem mais tanto tempo quanto teve no procedimento de acionamento, principalmente se tiver um jato para decolar após você. Assim, estar familiarizado com o checklist vai ajudar muito, mas vale aqui um aviso, nunca faça o check antes da decolagem confiando somente em sua memória, mesmo que tiver decorado, acompanhe a seqüência pelo checklist, afinal, é por isso que essa ficha tem esse nome não é?

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Daqui em diante os check lists tem que ser decorados, e é aqui que a simulação se torna mais importante ainda. O repasse dos procedimentos de emergência na decolagem vem a seguir, e está aí o primeiro check que você tem que saber de cor, pois não vai dar tempo de pegar o checklist e nem olhar para ele quando seu instrutor meter uma pane de decolagem a 200ft.

“Torre, é o PT-ABC no ponto de espera pronto”.

Chegou a melhor hora, mas nos seus primeiros vôos, você vai perceber que aqui as coisas vão começar a acontecer muito rapidamente e a importância de se ter o check list “na veia” é muito importante.

Alinha, checa bússola, transponder em “alt”, farol ligado, freia, manete toda a frente, pressão e temperatura do óleo nas faixas, RPM mínimo, libera freio.

Agora vem a simulação das panes de decolagem (com o avião em movimento) e aqui a simulação se torna muito interessante, pois você vai sentir a “pressão” de ter que fazer as coisas com prontidão. Simule as várias fases em que seu instrutor vai tentar te surpreender (pane na rolagem, após decolagem com pista disponível, sem pista, após 500ft, etc).

Depois vem os checks em voo mais tranqüilos, mas têm que ser decorados, pois são feitos no circuito do aeródromo, quando sua carga de trabalho é mais intensa, check após 500ft e pré-pouso.

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Finalmente precisamos falar sobre os procedimentos de emergência (ou treinamento de panes) “na área”. Você pode colocar seu avião virtual na altitude que a escola onde você vai voar costuma utilizar. Normalmente agente faz isso entre 2000 e 2500 AGL, e aqui você vai precisar se manter focado no objetivo da simulação, e nesse caso o objetivo não é você conseguir levar o avião até o local do pouso, o objetivo é decorar os procedimentos (Fogo, tentativa de religar o motor, preparação para o pouso, etc), e lembre-se, sempre acionando os comandos com o mouse para memorizar onde estão. Se você quiser, pode escolher o local para o pouso e ir para lá, isso vai ajudá-lo a ter uma noção do que é administrar o trabalho de completar os procedimentos sem esquecer de voar o avião.

O último check acontece no corte do motor, mas aí o stress já passou, o procedimento é curtinho e você pode fazê-lo lendo a ficha.

Assim, o Flight Simulator pode ser um grande aliado no início dos treinamentos de PP no que se refere a substituir, até certo ponto, os tradicionais “voos mentais” e “horas de cabine”.

Há alguns dias, experimentei novamente essa experiência utilizando o Flight Simulator para me familiarizar com o Tupi, foi de bom proveito, a única ressalva, por incrível que pareça, foi que no modelo virtual não havia amperímetro e após a partida no voo real eu acabei levando dez segundos para encontrar o dito cujo que finalmente foi encontrado no painel, logo abaixo do meu manche, mas, com todas as velocidades e limitações do avião na cabeça e todos os checks na ponta da língua no primeiro voo, o cara que te está “solando” se sente também bem mais tranquilo e confiante e o solo chega mais rápido.

Abraços a todos.

Bons vôos (reais e virtuais).

Raiss

Mais sobre a historia do Flight Simulator: http://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Microsoft_Flight_Simulator

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4 comentários em “O “Flight Simulator” no aprendizado do voo real.

  1. Muito obrigado Renne,
    É um prazer poder ser útil a jovens como você que estão aí na luta por um lugar no cockpit. Experimente praticar e depois compartilhe a experiência conosco.

    Bons voos.
    abs
    Raiss

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